8.10.07
13.9.07
Fui
A quem acompanhou este blogue de perto ou de longe (mais de 10 mil acessos desde novembro!), queria deixar meu obrigado. Foi um prazer dividir com vocês as surpresas e curiosidades desta jornada em Londres.
Naturalmente, fica no ar a questão que não quer calar: o que vai ser feito deste espaço? O projeto era desde o início fazer um blogue de viagem. Terminada a viagem, o blogue fica um pouco sem sentido. Por outro lado, acabei gostando da experiência de blogar – isto vicia!
É provável que eu acabe criando um outro blogue, para a próxima etapa da vida, e que este seja arquivado (ou seja atualizado em edições extraordinárias, sempre que surgir algum assunto oportuno que caiba na proposta deste espaço). Provavelmente terei menos tempo para blogar com a rotina nova, mas idéias decerto não faltarão.
Em todo caso, apareçam que vocês saberão o que vai acontecer.
Para me despedir e homenagear a personagem que inspirou o nome do blogue e estampa o dinheiro que venho usando há quase um ano, deixo vocês com um belo retrato de Sua Alteza Real feito por Drella, e uma corruptela de um poema feito em Sua homenagem por João & Paulo.
Afinal, no fim de tudo, o amor que você leva é igual ao amor que você dá.
Sua Majestade (João & Paulo)
Sua Majestade é uma gracinha,mas não diz nada de importante.
Sua Majestade é uma gracinha,
mas é uma garota mutante.
Quero lhe falar sobre o meu amor e o meu carinho,
mas antes preciso encher a pança de vinho.
Sua Majestade é uma gracinha,
um dia ela ainda vai ser minha.
Pois é: um dia ela ainda vai ser minha.
Retrospectiva
Com vocês, alguns top 3 que destacam pontos altos da temporada no reino da Tia Bete: é pretexto para trazer esses momentos à tona e reler alguns posts do blogue.
LONDRES
Três museus (arte):
1. Tate Modern
2. Courtauld Institute of Art
3. National Gallery
Três museus (ciência):
1. Science Museum
2. Natural History Museum
3. Wellcome Collection
Três museus (outros):
1. Museum of London
2. British Museum
3. Imperial War Museum
Três parques:
1. Kew Gardens
2. Hampstead Heath
3. St. James's Park
COMIDA E BEBIDA
Três restaurantes:
1. Eat and Two Veg
2. Village Kitchen
3. New Tayyab
Três pratos da Carla:
1. Vegetais na moranga (by Rafael)
2. Frango ao curry
3. Risoto de abóbora (by Marzia)
Três sabores de lingüiça:
1. Pork and stilton
2. Duck and orange
3. Hog and hop
Três hábitos que vão fazer falta:
1. Queijo cheddar
2. Bagels no café da manhã
3. Comida indiana em qualquer esquina
Três pubs:
1. King's Arms
2. Spaniards' Inn
3. The Goose (nosso local pub!)
Três marcas de ale:
1. Old Speckled Hen
2. London Pride
3. Bombardier
Três marcas de lager:
1. Stella Artois
2. 1664
3. Grolsch
CULTURA
Três livros (contos):
1. No one belongs here more than you - Miranda July
2. In between the sheets - Ian McEwan
3. Breakfast at Tiffany's - Truman Capote
Três livros (romance):
1. Mongólia – Bernardo Carvalho
2. High fidelity – Nick Hornby (pois é, só fui ler aqui...)
3. Post office – Charles Bukowski (relido no original)
(e lendo atualmente Crime e castigo, o que deve bagunçar a lista...)
Três filmes
1. The science of sleep – Michael Gondry
2. El laberinto del fauno – Guillermo del Toro
3. Borat – Sacha Baron Cohen
Três shows
1. Lou Reed
2. Raconteurs
3. Arctic Monkeys
Três discos (novidades):
1. Hats off to the buskers – The View
2. Made of bricks – Kate Nash
3. Grinderman – Grinderman
Três discos (veteranos – ou nem tanto)
1. Neon bible – Arcade Fire
2. Icky thump – White Stripes
3. Back in black – Amy Winehouse
VIAGENS
Três cidades (UK):
1. Edimburgo
2. Cambridge
3. Cardiff
Três cidades (UE):
1. Atenas
2. Dublin
3. Antuérpia
(Vamos combinar que Paris é hors-concours)
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11.9.07
Mais gaveta
3. O rato
A experiência me ensinou técnicas interessantes para exterminar baratas e, melhor ainda, fazê-las sofrer antes de morrer. Mas confesso que eu ainda não estava pronto para lidar com camundongos. Com eles a história é bem diferente: são mamíferos, têm sangue quente, quase um dos nossos. Não rola o mesmo distanciamento.
Pois o fato é que viemos a conviver com um deles. Entrou pela porta do jardim num dia em que foi esquecida aberta, sei lá. Fato é que entrou, isso é que importa. A Carla foi a primeira a ver, passou uma semana dizendo que havia um rato em casa. Ninguém levou muito a sério, até que ele ousou se mostrar a mim na madrugada que varei lendo notícias sobre o acidente com o avião da TAM.
Passamos a viver em estado de sítio dali em diante: compramos veneno, ficávamos apreensivos quando escurecia, Carla só ia ao banheiro com uma vassoura na mão. E o rato, saidinho que era, resolveu dar as caras na sala na hora da sobremesa de uma sexta-feira. Pra quê.
Armamos uma operação de guerra, isolamos a sala, construímos barricadas pra ele não fugir. A idéia não era matá-lo: fizemos um corredorzinho pra tocar ele pra rua. Mas faltou combinar com o adversário: o coitado só queria saber de ir na direção oposta, vai ver morava na despensa. Na afobação do momento, de tanto tocar ele com a vassoura, acabei matando, sei lá se de susto ou quebrando a espinha com um golpe mais excitado. Juro que não era a intenção: aconteceu.
Carla fez tanto escândalo durante a perseguição (ele quase escalou nossas barricadas) que convenci ela a escrever um bilhete de desculpas à vizinha, que devia estar achando que eu estava espancando a coitada.
Fomos dormir com um misto de alívio e trauma. Foi o primeiro mamífero que matei.
4. Of Montreal
Esse post eu devo à Micha, que me fez conhecer essa banda divertidíssima. Por coincidência, na semana em que ela me sugeriu ir atrás do Of Montreal, eles estavam tocando em Londres. Ouvi o disco, mas era cedo demais para ir ao show. Me arrependi depois, ao descobrir o som único desse grupo, que poderia ser classificado como pop surrealista ou algo que o valha, na encruzilhada entre Roxy Music e Belle & Sebastian.
A banda vem de Athens, Georgia, o que explica bastante coisa. Fiquei atônito ao descobrir na internet a letra verdadeira da música "Wraith pinned to the mist and other games", uma das mais simpáticas deles. O refrão diz: "Let's pretend we don't exist / Let's pretend we're in Antarctica". E eu passei semanas cantando aqui em casa "Let's pretend we're in an article"... (cantei tanto que até a Júlia acha que é assim).
Pois tive a chance de me redimir alguns meses depois, quando o Of Montreal voltou a Londres para outro show promovendo o lançamento recente de Hissing fauna, are you the destroyer? Foi uma surpresa ótima. Descobri que o glam não morreu: o vocalista vem maquiado até a alma, com meia arrastão e tudo, e o guitarrista vestido de anjo (tudo bem que o Arnaldo já fizera isso antes – não é à tôa que eles foram vistos fazendo covers de Mutantes por aí).
Em um dado momento, entram personagens fantasiados empunhando varas de pescar com balões na ponta que, ao estourar, espalham purpurina na cabeça da platéia (tive que me explicar ao chegar em casa). Só me senti deslocado na platéia, pelos trajes e cabelos: infelizmente já passei da idade.
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7.9.07
Da gaveta
Pois bem: chegou a hora de ressuscitar algumas dessas idéias. No espírito de balanço geral que caracteriza este momento, resolvi raspar o tacho e desovar alguns quase escritos que ficaram no meio do caminho. Os esboços a seguir não trazem na íntegra o relato que gostaria de ter feito, mas dão uma pequena palhinha dos posts que não escrevi.
1. Kythnos
Fui até bastante prolixo ao relatar a memorável viagem que fizemos à Grécia em abril, mas faltou falar de Kythnos, a paradisíaca ilha que visitamos durante nossa semana mediterrânea. Em geral, quem está baseado em Atenas e quer fazer um day trip de barco acaba indo às ilhas mais próximas da capital. São um passeio interessante, mas o atrativo principal é histórico/cultural, mais do que estético, se é que me entendem.
Não é o que procurávamos: ruínas e museus já tínhamos visto aos montes em Atenas. Queríamos Mar Egeu, as Cíclades, dépaysement. As horas investidas nas buscas do nosso destino (e no ferry – três pra ir e três pra voltar) foram recompensadas. Tivemos um dia Discovery Channel: mar azul, casinhas brancas, sol radiante, praias de cair o queixo.
A foto aí de cima não dá muito idéia das cores do mar e do nosso dia em Kythnos, pois foi tirada meio contra a luz. Mas é possível ter uma noção da praia mais absurda da ilha, à qual chegamos após looonga caminhada. A tripinha de areia que se vê ao fundo oferece duas opções: a praia de mar aberto de um lado, uma baía azul no Mar Egeu do outro. Fica a critério do freguês: ficamos com os dois.
2. O genoma impresso
A exposição temporária que abriu o museu, por exemplo, tem como tema o coração. Pois bem: há em exposição desde corações humanos e de outras espécies até vídeos de transplantes e instrumentos cirúrgicos, ao lado de telas do sagrado coração de Jesus e cabines onde é possível ouvir standards do jazz sobre corações partidos, no melhor estilo ArMuPo.
Mas o que mais chamou minha atenção foi a coleção dedicada ao futuro da medicina. Na sala sobre genômica, há uma estante na qual é possível ver dezenas de livros grandes e espessos, como se fossem volumes de uma enciclopédia. Um exame minucioso mostra que se trata de livros nos quais foi impressa a seqüência do genoma humano!Impressionante. Você deve ter se cansado de ler textos que calculavam quantas páginas e volumes o genoma humano ocuparia caso fosse impresso. E os malucos de fato imprimiram o genoma! É possível pegar volumes ao acaso e folhear: são centenas de páginas preenchidas por As, Cs, Gs e Ts. Isso é que é dar vida à metáfora...
[continua]
6.9.07
Time to go
Já não há mais rotina, já não há mais vida possível sem o sentimento agudo da volta pulsando a cada minuto. Arranjar concentração para trabalhar é cada vez mais complicado: difícil me desvencilhar do apartamento para esvaziar, das malas pra fechar, do limite de peso. Nossa vida vai ter que caber em 92 kg (isso porque já mandamos uns 190 kg ou mais por gente que passou por aqui nos últimos meses).
Júlia voltou no domingo passado com o Luís. A casa ficou vazia que só sem ela. E agora uma sucessão de últimos: sexta-feira passada fui a Southbank pela última vez, suponho – sei lá quando reverei Churchill e o prédio do parlamento. Domingo perdi meu último show, do Acoustic Ladyland. Depois de amanhã farei minha última viagem (Edimburgo). E agora escrevo tomando uma de minhas últimas ales.
Difícil fugir do clima grave e melancólico que o momento impõe: querendo ou não, é uma página que vamos virar em nossas vidas, e isso traz necessariamente balanços e projeções. Mas a transição tem um lado bom: ando impermeável, já estou completamente anestesiado, vivendo os últimos dias no piloto automático.
O bafo melado do Rio de Janeiro há de dar um choque de realidade e me trazer de volta à vida (o inverno carioca anda mais quente que o verão londrino, ao que parece).
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3.9.07
Notas do norte: arte
Só me toquei de que eram a mesmíssima cidade no dia em que vi um mapa bilíngüe com a correspondência: Antwerpen (Anvers). Antuérpia, é claro! Havia me esquecido de que existia uma cidade com esse nome.
Pois bem: a Antuérpia existe mesmo, eu a visitei na semana passada. E ela tem uma imponente cadetral, conforme sugere o detalhe acima. Eu estava com saudade do gótico continental, que é muito mais rico e interessante do que o gótico britânico. As igrejas destas ilhas não são lá de se jogar fora, mas são bem monótonas. Vamos combinar: há uma série de motivos bacanas que justificam uma visita ao Reino Unido, mas a arquitetura religiosa não é um deles.Mas me perdi nessa digressão: estávamos em Antuérpia. A catedral (a mais requintada do país, dizem) é um motivo que justifica uma visita à cidade. Peter Paul Rubens é outro. Um dos nomes maiores da pintura flamenga do século 17, o amigo viveu e morreu em Antuérpia. Há obras dele espalhadas pelas igrejas e vários prédios da cidade, mormente no ateliê em que ele trabalhou.
Rubens há de nos desculpar, mas tivemos que esnobar sua herança na Antuérpia moderna. Uma escolha tinha que ser feita: tínhamos um dia a passar na cidade, e visitar mais de um museu seria exaustivo. Rubens saiu perdendo: suas telas podem ser vistas às dezenas na National Gallery e no Courtauld Institute of Art. Por outro lado, se saíssemos de Antuérpia sem visitar o MuHKA (Museu de Artes Contemporâneas), perderíamos a oportunidade única de ver a cloaca original. Nem pensamos duas vezes.
A cloaca em questão, vale esclarecer, é uma obra do artista belga Wim Delvoye que se alinha com toda uma tradição de arte escatológica surgida no final do século passado e que já foi tema de discussão neste blogue aqui, aqui e aqui.

Era uma obra imperdível: não poderíamos passar por Antuérpia sem ver a cloaca. Lá fomos então para o MuHKA. Que é um espaço muito interessante e tem uma coleção instigante (naturalmente, como em toda a arte contemporânea, há obras brilhantes ao lado de coisas absolutamente sem relevância).
A decepção maior é que a cloaca original não estava em exposição. Talvez estivesse no segundo andar, que estava fechado para reformas. Ou talvez não estivesse mais exposta: a julgar pelo link que passei acima, a cloaca deu origem a toda uma linhagem de máquinas do gênero, mais modernas e com um processo de digestão mais rápido. Ficamos sem saber o que se fez dela. Em todo caso, valeu a visita ao MuHKA.
Como valeu muito também, já na França, a visita ao Museu Matisse situado em Cateau-Cambrésis, diminuto vilarejo em que nasceu o mestre fauvista, a 35 km de Valenciennes. É um museu arejado e simpático, que dá um panorama bacana da carreira do artista.Nenhuma das grandes obras de Matisse está ali, é verdade, mas a coleção dá uma idéia interessante da evolução que ele seguiu, desde a figuração comportada nas naturezas mortas feitas nos primeiros anos de carreira, ainda no século 19, até as colagens e extravagâncias do fim da vida.
As esculturas dele, que eu pouco conhecia, são alguns destaques da coleção. Me chamou a atenção também a sala para a qual foi transplantado o teto em que ele pintou um retrato dos netos (com um lápis amarrado a uma vara de pescar!), para não sentir saudade deles à noite.
Notável ainda é o projeto de decoração que ele fez no início dos anos 1950 para uma capela em Vence, na Provença. Ele projetou alguns vitrais e desenhou até a batina que os padres usariam. Eu ouvi "obra de arte para vestir"? Teria Matisse sido um precursor dos parangolés?
Por fim, se é para fazer uma resenha exaustiva do lado artístico da viagem à França e Bélgica, é imperativo citar o magnífico quadro da Rosa que decora a sala do Rafael. Notável, um dos melhores exemplos do gênero que é a especialidade dela: o olhar pessoal sobre o espaço doméstico.
Estamos levando conosco um quadro dela, menorzinho um pouco, para decorar nossa casa. Quem viver verá.
Marcadores: arte, Valenciennes e adjacências, viagens
2.9.07
Notas do norte: comida
Orgulhamo-nos no Brasil de nossos taperebás, cupuaçus e bacuris, mas a verdade é que não detemos a exclusividade sobre as frutas exóticas do mundo. Tome o exemplo da fruta-do-dragão, aí em cima, à qual fui apresentado na temporada em Valenciennes.
Por fora ela é rosada, com protuberâncias amarelas similares a espinhos; por dentro, é branca com bolinhas pretas, qual um sorvete de flocos. A textura macia também lembra a de uma sobremesa cremosa, e o gosto surpreendente faz jus à expectativa suscitada pela aparência convidativa.
A fruta-do-dragão (ou pitaia) foi apenas uma das frutas asiáticas que Rosa Maria, sempre surpreendendo com suas inovações culinárias, nos brindou na estadia chez Rafael. Houve outras duas ou três de cujo nome já não me lembro, mas que deixaram uma impressão igualmente marcante.
O lado gastronômico, aliás, foi um dos pontos fortes dessa viagem. Vindo da própria Rosa Maria, tivemos um sublime maigret de pato que, parafraseando o Leo, foi a coisa mais parecida com picanha que me foi dado comer na Europa (saudade de picanha: está quase).
E houve ainda, claro, os pratos do anfitrião: pilotando sua cozinha mágica, Rafael brindou-nos (em ordem cronológica) com goulash, pizzas, esfihas e churrasco chinês, além de pães variados feitos em casa. Ficou faltando só a prometida carne de avestruz: pretexto para voltar a Valenciennes qualquer dia desses.
Tivemos ainda a oportunidade de provar novos sabores de lingüiça que eu levara da East London Sausage Co.: as de lamb and mint e chicken with apricot and tarragon passaram fácil no teste de qualidade. Comemos ainda as já manjadas e aprovadas duck and orange e wild boar and forest fruits.
Uma lacuna importante foi não ter mergulhado numa especialidade culinária da Bélgica e do norte da França: as batatas fritas. Em Valenciennes há um trailer de chips (o "rei das fritas" ou algo assim) que tem até carteirinha de fidelidade. E em Flandres há em praticamente cada esquina um letreiro com a palavra frituur, que é como se diz fritanga em holandês.
Pulamos essa especialidade belga para ficar com uma outra, em que eles conseguem ser realmente notáveis: a cerveja. Não foram poucas as variedades que provamos, muitas delas feitas por abades e monges trapistas. Nossas sessões de degustação iam das manjadas Leffe e Hoegaarden às consagradas Duvel e Delirium Tremens, passando por uma extensa gama de marcas, dentre as quais destaco em especial a Chimay e a Ch'Ti (esta francesa), que não conhecia ainda. Esses abades não brincavam mesmo em serviço.
29.8.07
Simétrico
Por isso, faço hoje um post simétrico ao último, para não deixar o blogue às moscas por tantos dias seguidos. Naquela ocasião, apresentei um artigo de jornal que li no trem de ida; comento agora o livro que vim lendo no trem de volta.
No one belongs here more than you é o primeiro livro de uma autora californiana chamada Miranda July, que é também cineasta e artista performática. Foi publicado em maio deste ano e ainda não foi traduzido. Descobri por conta de uma resenha da Time Out, que o elegeu o "livro da semana" algumas edições atrás. Fui atrás e tive uma grata surpresa.O livro tem 16 contos breves, espalhados por quase 200 páginas. São histórias rápidas, fáceis e, sobretudo, gostosas de ler. Se li apenas quatro contos até aqui, foi sobretudo para prolongar o prazer e economizar o livro. Ao fim de cada relato, retorno aos parágrafos iniciais, para relê-los à luz do desfecho (o pesar que temos ao virar as páginas e nos aproximar do fim é o melhor termômetro para caracterizar um bom livro).
A escrita de July é envolvente e chama a atenção nem tanto pela condução fluida da trama, mas sobretudo pelos meandros – uma digressão travessa, uma comparação improvável, um quase-diálogo perdido. A narrativa (sempre na primeira pessoa, quase sempre uma protagonista feminina) é permeada por elementos insólitos. Há desde a moça que se apaixona pelo vizinho epilético até a jovem que dá aula de natação para aposentados na sala de sua casa, em um vilarejo perdido no qual não há mar ou piscina.
O estranhamento é uma constante nos contos, que parecem ter todos um toque onírico. Não é à tôa que a passagem que mais me marcou até aqui tenha sido o relato de um sonho, no conto "Majesty", em que uma especialista em segurança sísmica de meia-idade discorre sobre sua obsessão com o príncipe William.
No sonho, o futuro rei dava um cheiro na bunda da narradora: "I realized he had lifted up the back of my skirt and was nuzzling his face between my buns. He was doing this because he loved me. It was a kind of loving I had never known possible."
O que mais me marcou não foi o sonho em si, mas a forma como ele tocou a protagonista e o esforço dela para retê-lo ao longo do dia: "That day I carried the dream around like a full glass of water, moving gracefully so I would not lose any of it. I have a long skirt like the one he lifted, and I wore it with a new sexual feeling."
Que simplicidade! Já me aconteceu tantas vezes me apegar a um determinado sonho e me esforçar para guardá-lo comigo, e July conseguiu resumir isso de forma tão bela e precisa. Demorei-me nessa passagem antes de seguir a leitura.
Hoje, relendo a resenha da Time Out para linkar aqui, notei que esse trecho é um dos poucos que o crítico citara no texto. Mas juro que nem me lembrava disso. Em todo caso, guardem o nome da autora.
Marcadores: literatura, monarquia
23.8.07
Só Jesus salva
Reproduzo aí em cima uma das 18 imagens do casal Steve e Pam Paulson publicadas ontem pelo caderno G2. Em uma viagem de costa a costa pelos EUA, os dois ficaram impressionados com a originalidade das placas de algumas igrejas que encontraram pelo caminho (muitas delas evangélicas).Depois disso, eles passaram os últimos tres verões percorrendo as pequenas estradas da América profunda em busca dessas pérolas, que eles reuniram em um ensaio fotográfico (visitantes assíduos sabem que tenho a mania de chamar isso de "exercício de fotografia potencial").
Vale a pena visitar a galeria selecionada pelo Guardian. Alem da foto acima, há outros cartazes impagáveis, como os seguintes:
- The ten commandments are not multiple choice
- To be almost saved is to be totally lost
- You may party in hell but you will be the barbque
- Can't sleep? Counting sheep? Talk to the shepherd
- If God had a refrigerator your picture would be on it
Além de motivar boas risadas, a leitura das placas serviu como consolo: percebo que o Brasil não é o único país vulnerável ao crescimento de igrejas com técnicas peculiares para arregimentar fiéis. E vejo que tampouco detemos a prerrogativa exclusiva de produzir placas ridículas.
Fiquei com menos complexo por ser brasileiro.
Marcadores: fotografia, religião

